Jornal O Globo
No fim de maio, a antiga conta de mídia social da Casa Branca usada pelo presidente Barack Obama começou repentinamente a publicar conteúdos estranhos em sua página do Instagram. A conta estava inativa desde 2017, quando Obama deixou o cargo. As novas publicações — que incluíam mensagens criticando o presidente Donald Trump e afirmando que a Casa Branca estava “sob controle xiita”, em referência a um ramo do Islã — não condiziam com o padrão das atividades de Obama nas redes sociais. Posteriormente, descobriu-se que as publicações não haviam sido feitas pelo escritório do ex-presidente americano. No mês passado, um grupo de hackers encontrou uma falha em uma ferramenta de atendimento ao cliente da Meta que permitia a qualquer pessoa usar um chatbot alimentado por inteligência artificial para redefinir senhas de contas do Instagram. Tudo o que o hacker precisava fazer era pedir ao chatbot que alterasse a senha de alguém — e a mudança era realizada. Cerca de 34 mil contas do Instagram foram afetadas, incluindo as contas da empresa de monitoramento de segurança residencial SimpliSafe e de um alto funcionário do departamento da Força Espacial do governo Trump, de acordo com documentos internos da Meta analisados pelo The New York Times. No caso do funcionário da Força Espacial, hackers começaram a publicar mensagens pró-Irã comparando a guerra no país ao envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã durante a década de 1960. Das 34 mil contas, 20 mil foram comprometidas, dando aos hackers acesso aos endereços de e-mail, números de telefone, datas de nascimento e outros dados pessoais associados. De acordo com os documentos internos, mais de 3.500 dessas contas tiveram seus nomes de usuário assumidos e alterados pelos invasores. A Meta afirmou que não conseguiu determinar quais informações foram visualizadas ou roubadas pelos atacantes. Em comunicado, a Meta informou que corrigiu a falha, que foi divulgada neste mês pelo site 404 Media, e protegeu as contas afetadas. “Algumas de nossas verificações internas de back-end falharam neste caso, mas isso não ocorreu por causa do agente de IA em si, e já corrigimos a causa subjacente”, disse Andy Stone, porta-voz da Meta, acrescentando que a empresa está notificando os órgãos reguladores e as pessoas cujas contas foram afetadas. A companhia afirmou que, graças aos seus novos programas automatizados de atendimento ao cliente, chamados “agentes”, o número de usuários que conseguiram recuperar contas invadidas nos Estados Unidos e no Canadá aumentou 30% no ano passado. Um porta-voz do ex-presidente Barack Obama recusou-se a comentar o caso. Contratempo relacionado à IA O incidente foi mais um contratempo relacionado à inteligência artificial para a Meta, enquanto a empresa tenta se reinventar com base nessa tecnologia. A companhia, que também é proprietária do Facebook e do WhatsApp, não apenas está integrando IA aos seus aplicativos, como também está investindo bilhões de dólares para acompanhar concorrentes como a Anthropic e a OpenAI no desenvolvimento de sistemas de IA de ponta. Mark Zuckerberg, diretor-presidente da Meta, afirmou que o futuro da empresa depende de uma rápida transição para uma organização centrada em inteligência artificial (“AI-first”). Mas essa transição não tem sido tranquila. No mês passado, a Meta lançou um programa para monitorar a atividade dos computadores dos funcionários com o objetivo de treinar sistemas de IA, provocando uma revolta entre seus empregados. A empresa também intensificou o uso de ferramentas de IA internamente enquanto demitia milhares de trabalhadores para compensar os gastos com inteligência artificial, o que prejudicou ainda mais o moral da equipe. De forma mais ampla, também vêm crescendo as preocupações de que sistemas avançados de IA estejam criando mais ameaças à segurança do que conseguindo impedir. Em abril, a Anthropic anunciou o Mythos, seu modelo de IA mais avançado, mas decidiu não disponibilizar a tecnologia publicamente por receio de que ela pudesse ser usada para explorar vulnerabilidades de segurança em larga escala. Na terça-feira, a Anthropic lançou o Claude Fable 5, uma versão mais restrita do Mythos que, segundo a empresa, é segura para uso generalizado. Roubo de contas é lucrativo O roubo de contas de redes sociais de grande visibilidade, com milhões de seguidores, há muito tempo é uma atividade lucrativa. Hackers descobriram maneiras de enganar usuários para que entreguem o controle de seus perfis por meio de mensagens fraudulentas ou falsas redefinições de senha, frequentemente revendendo esses perfis a compradores como promotores de criptomoedas ou operadores políticos. Os compradores então utilizam as contas para disseminar mensagens visando ganhos pessoais ou políticos, ou, em alguns casos, simplesmente para causar transtornos. Nas últimas semanas, a Meta acelerou seus planos de oferecer produtos de IA para empresas, buscando atrair mais clientes corporativos. Em um evento realizado na semana passada, a companhia apresentou um produto chamado “agente empresarial” (business agent), que permite às organizações utilizar chatbots automatizados para lidar com questões de atendimento ao cliente, como agendamento de compromissos ou conclusão de transações. O agente empresarial da Meta está disponível para clientes no Instagram, WhatsApp e Facebook Messenger. Em uma carta enviada na semana passada à procuradora-geral do estado do Maine, obtida pelo site This Week in Security, a Meta informou que está conduzindo uma “revisão abrangente” para identificar e tratar outros problemas de segurança. Ainda assim, segundo documentos internos, a Meta decidiu não fazer mudanças significativas em seus planos para IA após as invasões das contas do Instagram. “Concordamos em manter todos os produtos ativos e em interromper um experimento em andamento (Chat de Recuperação de Senha do Instagram)”, afirmam os documentos. “Todos os demais pontos de acesso permanecerão disponíveis.” Funcionários da Meta pareciam estar se preparando para futuros incidentes. “Os vetores de ataque adversariais estão sempre evoluindo”, escreveu um funcionário em uma mensagem interna enviada a colegas e analisada pelo NYT. “Os testes de segurança são um processo contínuo.”
Go to News Site