Jornal O Globo
Condenado inicialmente a 120 anos e seis meses de prisão pelo massacre ocorrido no Morumbi Shopping, em São Paulo, em 1999, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, de 51 anos, tornou-se escritor de true crime. Desde o início de 2026, ele vem publicando livros digitais de forma independente sobre alguns dos crimes mais conhecidos do Brasil e do exterior. Entre os temas escolhidos estão os casos Suzane von Richthofen, Isabella Nardoni e o massacre de Columbine. No mês passado, porém, decidiu abordar o tema mais delicado de todos e lançou um livro sobre o crime que ele próprio cometeu. A obra recebeu o título Dentro da Escuridão e o seguinte subtítulo: A Vida, a Mente e o Crime de Mateus da Costa Meira. Na capa, aparece a silhueta de uma cabeça humana preenchida por uma árvore seca, da qual pende uma forca. Ao redor estão uma submetralhadora, algemas, manchas de sangue e figuras caminhando por uma paisagem sombria. Logo nas páginas iniciais, Mateus afirma que o livro foi construído a partir de documentos públicos, laudos periciais, decisões judiciais e reportagens. Também sustenta que a cobertura da imprensa não foi capaz de compreender plenamente os motivos que o levaram a cometer o massacre e afirma que poucas pessoas tiveram acesso ao volume de informações que ele reuniu para contar sobre a própria história. Livro de Matheus Meira, autor do massacre em shopping no Morumbi Reprodução O aspecto mais incomum da publicação de quase 100 páginas é a forma como ela foi escrita. Embora seja o protagonista dos acontecimentos, Mateus narra a maior parte do livro em terceira pessoa, como se observasse a trajetória de outro indivíduo. O estudante de Medicina que entra armado no shopping, o jovem que diz ouvir vozes e o autor do massacre aparecem descritos como personagens de uma narrativa biográfica. Em diversos trechos, o autor parece assumir a posição de observador da própria vida. Ao mesmo tempo, argumenta que somente ele poderia oferecer um relato realmente fiel dos acontecimentos, justamente por ter sido o único a conhecer integralmente seus pensamentos, seus delírios e os motivos que o levaram a agir naquela noite. O crime reconstituído no livro ocorreu em 3 de novembro de 1999. Segundo os processos judiciais e os relatos produzidos ao longo da investigação, Mateus acreditava estar sendo perseguido e afirmava ouvir vozes. Naquela noite, entrou armado no Morumbi Shopping carregando uma submetralhadora Cobray calibre 9 milímetros. Antes do ataque, dirigiu-se ao banheiro do cinema e efetuou um disparo contra um espelho. Em seguida, retornou à sala onde era exibido o filme Clube da Luta. Poucos minutos depois, abriu fogo contra a plateia. O ataque deixou três mortos, Fabiana Lobão, Hermé Luísa Jatobá e Júlio Maurício Zemaitis, além de vários feridos, tornando-se um dos massacres mais conhecidos da história criminal brasileira. A repercussão do caso foi imediata. Mateus foi preso ainda no local e submetido a uma série de avaliações psiquiátricas. Desde os primeiros depoimentos, afirmou que sofria perseguições de espíritos. A defesa tentou demonstrar que ele não possuía plena capacidade de compreender seus atos. Os peritos nomeados pela Justiça paulista, contudo, concluíram que ele apresentava transtorno esquizoide da personalidade e esquizofrenia, mas era plenamente imputável. Em outras palavras, entendiam que ele possuía condições de compreender o caráter criminoso de sua conduta e de responder por ela perante a Justiça. Entre os livros recentes publicados por Mateus, um dos que mais chamam atenção é "Columbine – O Massacre que Mudou a América", lançado em abril de 2026. Com pouco mais de 80 páginas, o volume reúne informações sobre o ataque ocorrido na Columbine High School, nos Estados Unidos, em 20 de abril de 1999. Na apresentação da obra, Mateus afirma ter utilizado relatórios oficiais, arquivos do FBI, depoimentos de sobreviventes, vídeos e diários dos autores do massacre, além de estudos acadêmicos produzidos ao longo dos últimos 25 anos. O interesse pelo tema dialoga diretamente com sua conhecida atração por casos de violência extrema e massacres de grande repercussão. A relação de Mateus com esse universo, porém, começou muito antes da publicação de seus livros. Durante um intercâmbio estudantil no estado de Illinois, ainda adolescente, ele desenvolveu fascínio por crimes violentos e assassinos em série. Um dos casos que mais o impressionaram foi o de Richard Speck, responsável pelo assassinato de oito estudantes de enfermagem em Chicago, em 1966. Segundo relatos e documentos produzidos ao longo dos anos, Mateus pesquisava obsessivamente o caso, escrevia textos sobre o criminoso e demonstrava interesse crescente por investigações policiais, perfis criminais e homicídios de grande repercussão. Foi ali que teve seu primeiro contato mais profundo com o universo que décadas depois passaria a explorar como escritor. Quando esteve preso em Tremembé, no início dos anos 2000, Mateus já exercia a escrita. Entre os documentos produzidos por ele estão poemas em inglês marcados por temas como morte, sofrimento, perseguição, culpa, solidão e destruição. Em um dos textos, descreve um abutre que o ataca repetidamente e tenta devorar seu pescoço. Em outro, escreve sobre perda, remorso, angústia e morte. Os escritos revelam uma produção literária dominada por imagens sombrias e por reflexões constantes sobre violência, sofrimento e isolamento. Residente na Bahia Atualmente, Mateus mora em Salvador e está completamente livre. Sua situação jurídica sofreu recentemente uma reviravolta digna de folhetins policiais. Em 2004, o Tribunal do Júri da Justiça de São Paulo o sentenciou inicialmente a 120 anos e seis meses de prisão. Posteriormente, a pena foi reduzida para 48 anos e nove meses. Em 2009, quando cumpria pena na Penitenciária Lemos de Brito, em Salvador, ele atacou com uma tesoura o companheiro de cela Francisco Vidal Lopes, um preso espanhol condenado por tráfico de drogas. A vítima sobreviveu, mas o episódio levou à abertura de um novo incidente de insanidade mental. Diferentemente do que havia ocorrido em São Paulo, os novos exames psiquiátricos feitos em Salvador apontaram um quadro de esquizofrenia paranoide. Os laudos descrevem delírios persecutórios, alucinações auditivas e relatos de que ele ouvia vozes. Com base nessas conclusões, a Justiça baiana o considerou inimputável em relação ao ataque ocorrido na prisão e determinou sua transferência para o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia. Ali, permaneceu por mais de uma década submetido a medida de segurança e acompanhamento médico permanente. Após sucessivas avaliações indicarem estabilização clínica e ausência de periculosidade, a Justiça autorizou sua desinternação em 2024. Quando deixou o hospital, a expectativa era que passasse a viver com os pais, que foram recebê-lo na saída da instituição. Na prática, porém, a adaptação ocorreu de forma diferente. Atualmente, Mateus mora sozinho em Salvador, embora permaneça sob acompanhamento da família, de cuidadores e de profissionais responsáveis por seu tratamento psiquiátrico. Entre as condições impostas pela Justiça está a continuidade do tratamento médico e o uso regular da medicação prescrita. A nova rotina em liberdade também chamou atenção de moradores da capital baiana. Mateus já foi visto várias vezes circulando pelo Shopping Barra, um dos centros comerciais mais tradicionais de Salvador. Para algumas pessoas, a cena provoca desconforto pelo simbolismo. Afinal, trata-se do homem que entrou armado em um shopping center e protagonizou um dos ataques mais conhecidos da história criminal brasileira. Mais de duas décadas depois do massacre, ele tenta construir uma nova identidade pública. Desta vez, não como personagem das páginas policiais, mas como autor de livros sobre os crimes que sempre o fascinaram. Os advogados de Mateus foram procurados para comentar sobre a atividade de escritor do assassino. Mas eles decidiram não se pronunciar oficialmente, frisando que ele não deve mais nada a ninguém. “A única coisa que posso falar é que morro de medo dele”, disse um defensor de Mateus, pedindo o anonimato.
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