Vogue Brasil
Foi dada a largada para a Copa do Mundo de 2026, a primeira disputada simultaneamente por três países e a maior da história do torneio, com 48 seleções em campo. Em um momento em que camisas de clubes circulam entre desfiles e festivais e arquivos esportivos alimentam pesquisas criativas, o futebol volta a ocupar um lugar central. Para uma geração de criativos brasileiros, o esporte nunca esteve restrito aos noventa minutos de jogo. Em alguns casos, foi a primeira paixão, um sonho de infância. Também há quem tenha encontrado nos gramados as mesmas desigualdades e disputas que existem fora deles. Não por acaso, sua influência ultrapassou há muito tempo os limites dos estádios e segue aparecendo em diferentes áreas da cultura, incluindo a moda. Em meio às expectativas para a Copa, convidamos diferentes nomes da cena criativa brasileira a revisitar suas relações com o esporte. Confira! Leia também Sam Porto Sam Porto, modelo Aleph Loureiro Antes de trabalhar como modelo, Sam Porto sonhava em ser jogador profissional. A relação com o futebol começou ainda na infância, jogando na rua com os amigos, passou por campeonatos escolares e projetos esportivos e chegou até a escolinha do São Paulo. O esporte também ocupava um lugar importante em seu processo de construção identitária enquanto homem trans. “Era um sonho. Eu largava tudo para priorizar o futebol, em muitos momentos deixava até de focar nos estudos. Era um refúgio para mim porque eu também estava cada vez mais me entendendo como uma pessoa trans. Ali eu esquecia qualquer problema. Eu recebia muitos elogios, as pessoas comentavam sobre o meu jeito de jogar, falavam com os meus pais, me incentivavam. Eu assistia a todos os jogos, chorava vendo futebol, ficava ansioso antes das partidas. Era uma paixão muito forte. Eu me sentia vivo jogando”, relembra. Ao entrar na adolescência, no entanto, essa paixão passou a esbarrar nas limitações impostas pela própria estrutura do esporte. Sam Porto, modelo Aleph Loureiro “Eu não me encaixava no time feminino, mas também não podia seguir no masculino. Parecia que sempre existia algo me limitando dos dois lados. Chegou um momento em que eu precisei escolher entre viver sendo eu mesmo, um homem trans, ou seguir sustentando uma identidade que não era minha para tentar continuar jogando. Foi uma das decisões mais difíceis e cruéis da minha vida.” Hoje, ele continua acompanhando o esporte com entusiasmo, mas também com um olhar crítico sobre suas desigualdades. “O futebol projeta sonhos, gera identificação coletiva e faz parte da história de milhões de pessoas. Mas, quando você pertence a uma minoria, o lado B também aparece. O machismo é muito forte, a diferença de visibilidade é evidente e a inclusão da diversidade ainda é inexistente em muitos espaços. Mesmo assim, continuo apaixonado. De certa forma, tudo isso ainda influencia a maneira como eu vejo pertencimento, identidade e o meu lugar no mundo.” Cruela Cruela, stylist e pesquisadora à frente do Acervo do Relíquia Acervo pessoal Entre os criativos que observam o futebol também como fenômeno visual está Mayara Kerli, mais conhecida como Cruela. Stylist e pesquisadora à frente do Acervo do Relíquia, projeto dedicado à curadoria, preservação e circulação de peças vintage ligadas ao esporte e à cultura de rua, ela desenvolveu um olhar atento para identificar camisas de diferentes épocas. Sua relação com o futebol começou ainda na infância, em uma família profundamente ligada ao Corinthians e ao futebol de várzea. "O futebol sempre fez parte do cotidiano da casa, das conversas, dos jogos de domingo. Hoje isso aparece até na maneira como me visto e nas peças que coleciono, porque enxergo as camisas também como memória", conta. Talvez por isso, o interesse nunca tenha se limitado ao que acontece dentro das quatro linhas. Ao longo dos anos, Cruela passou a enxergar as camisas como objetos capazes de ilustrar diversos contextos sociais. Entre suas lembranças mais vívidas está a época em que o pai conseguiu um PlayStation e transformou a casa em ponto de encontro para familiares e vizinhos se reunirem em torno das partidas de FIFA. "Mesmo sem estádio ou partida real, o futebol conseguia reunir e alegrar todo mundo ali", relembra. Ao longo dos anos, o futebol passou a interessá-la menos pelo resultado das partidas e mais pelos efeitos que produz fora dos estádios. Das camisas usadas no dia a dia aos códigos visuais que circulam pelas ruas, o esporte se tornou uma fonte constante de observação. "Me interessa perceber os rastros visuais que o futebol deixa no cotidiano, na forma de vestir e nas apropriações fora do contexto esportivo. Isso influencia diretamente meu olhar criativo", diz. Acervo do Relíquia Breno Brandão Kathleen Caroline Kathleen Caroline, produtora de conteúdo Acervo pessoal Para a creator e produtora Kathlenn Caroline, o futebol está ligado às lembranças de casa. As recordações mais marcantes envolvem o pai, os irmãos e os momentos em que a família se reunia para acompanhar as partidas. "Minha relação com o futebol sempre foi muito mais afetiva do que esportiva. É algo que me conecta muito ao lado paterno da minha família", conta. Embora tenha herdado um time do coração, ela diz que sua relação com as camisas vai além da rivalidade entre clubes. "Quando construo um look, gosto de enxergar essas peças como algo que carrega história", afirma. Essa perspectiva também aparece em seu trabalho como embaixadora da All Senses, comunidade criativa que reúne moda, música e cultura. Em sua edição mais recente, o projeto escolheu as camisas de futebol como ponto de partida para observar como essas peças circulam há décadas no vestuário brasileiro. "A gente quis celebrar como a camisa de time já faz parte da moda brasileira há muito tempo, principalmente na periferia, muito antes de virar tendência", explica. O resultado foi um encontro em que cada camisa revelava uma relação particular com o esporte. "A ideia era deixar as pessoas à vontade para aparecer com a camisa que mais representasse elas", diz. Entre os convidados, surgiram histórias de família, amizades, bairros e diferentes momentos da vida. "Ali a camisa acabou virando uma forma das pessoas contarem suas próprias histórias", relembra. Kathleen Caroline, produtora de conteúdo Acervo pessoal Fernanda Souza Fernanda Souza Correrua, diretora criativa, fotógrafa e cineasta Instagram/Reprodução @correrua_ Fernanda Souza, conhecida como Fernanda Correrua, passou anos observando como tendências, hábitos e referências circulam pelas periferias brasileiras. Multiartista e diretora criativa, ela acompanha de perto movimentos que nascem longe dos espaços tradicionalmente associados à moda e, ainda assim, acabam influenciando a forma como o país se veste. Aqui, o futebol aparece como uma força cultural de enorme alcance. "Os jogadores de futebol são capazes de lançar tendências que repercutem em diversas áreas. Vira música, vai para a moda e chega na população. São muitos os desdobramentos", afirma. Ao falar sobre futebol, Correrua acaba voltando a um tema que atravessa grande parte de sua pesquisa: o protagonismo da periferia na produção de referências culturais. Em sua leitura, muitas tendências que mais tarde ganham espaço na publicidade, na moda ou no entretenimento já circulavam nesses territórios muito antes de serem legitimadas por grandes marcas. "A periferia sempre produz ou movimenta a moda, seja consumindo ou criando referências. Muita coisa sai daqui", diz. Fernanda Souza Correrua, diretora criativa, fotógrafa e cineasta Instagram/Reprodução @correrua_ Revistas Newsletter
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